2º fundo de maconha estreia no Brasil e mira pequenos investidores

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Chega ao mercado brasileiro o segundo fundo de investimentos que vê na maconha um segmento promissor quando o assunto é retorno ao investidor.

A gestora Vitreo lança hoje (19) o fundo Canabidiol Light menos de um mês depois de apresentar o primeiro fundo brasileiro a investir na indústria da cannabis, o Vitreo Canabidiol FIA IE. A principal diferença entre eles é o tamanho da exposição ao mercado internacional.

O Vitreo Canabidiol FIA IE, fundo lançado em outubro, investe 100% de seu patrimônio no mercado financeiro dos EUA e do Canadá, sendo dois terços do portfólio em ETFs (Exchange Traded Funds, fundos negociados em bolsa) e um terço em ações de cinco a seis companhias do segmento de maconha.

Por estar totalmente voltado ao mercado externo, a CVM (Comissão de Valores Mobiliários, órgão que fiscaliza o mercado de capitais brasileiro) impõe a restrição de acesso apenas para investidores qualificados, ou seja, aqueles com pelo menos R$ 1 milhão em aplicações financeiras. Hoje, apenas 15% dos clientes da Vitreo declararam ter o perfil de investidor qualificado.

Com o lançamento do fundo Canabidiol Light, a Vitreo amplia o acesso ao mercado de cannabis para os pequenos investidores.

Esse fundo aplicará 20% do capital investido no fundo Vitreo Canabidiol FIA IE, composto por ações e ETFs, e 80% em Tesouro Selic, título de renda fixa considerado o mais seguro disponível no país. A taxa de administração é de 0,056% e o investimento mínimo é de R$ 5 mil.

A grande procura pelo fundo restrito a investidores qualificados deu um empurrãozinho na Vitreo para decidir pela popularização do investimento em maconha.

“A repercussão do primeiro fundo, que era exclusivo para investidores qualificados, gerou uma demanda muito alta de pessoas que queriam fazer aplicações nesse mercado, mas não atendiam os requisitos da CVM para investir. Foi para atender esse interesse entre os investidores que o Canabidiol Light foi pensado”, explica George Wachsmann, sócio e chefe da gestão da Vitreo.

Nas primeiras 12 horas após o lançamento do Vitreo Canabidiol FIA IE, a gestora captou mais de R$ 3 milhões e chegou a R$ 20 milhões nas duas primeiras semanas. A meta da gestora para os primeiros dois fundos de cannabis do Brasil é alcançar R$ 100 milhões de patrimônio em cada um deles.

Mercado volátil
As ações de empresas do mercado de cannabis têm alta volatilidade, não só devido às tradicionais variações na oferta e na demanda, como acontece com qualquer ativo de renda variável, mas também por riscos específicos desse segmento, como aqueles associados a proibições de governos.

Vale destacar que embora essas empresas não sejam estatais, elas estão à mercê de eventuais mudanças nas composições dos governos e nas regulamentações do setor.

George Wachsmann vê o risco como um leque de oportunidades, uma vez que as chances de as liberações já existentes retrocederem são menores, segundo ele, enquanto novos países podem entrar no mercado, como é o caso do Brasil (leia mais abaixo).

O gestor da Vitreo conta que hoje 22 países já têm algum uso liberado do canabidiol, o que representa uma população total de mais de 1,5 bilhão de pessoas.

Além da exposição de 20% do investimento às oscilações das ações e dos ETFs, o desempenho do fundo Canabidiol Light – e seus investidores – estará exposto à variação cambial no período.
Apesar de o investidor precisar ter esse risco no radar, o gestor explica que não vê no horizonte de curto e médio prazo potenciais solavancos na cotação da moeda americana frente ao real.

Os 80% aplicados em renda fixa conservadora, no Tesouro Selic, servem como um colchão para amortecer as oscilações da parte alocada em renda variável.

Comece aos poucos
Mesmo terceirizando a gestão dos recursos, os especialistas da Vitreo orientam que seus clientes entendam pelo menos um pouco do setor em que o fundo aplica para que compreendam os riscos e as oportunidades envolvidos. O Valor Investe já mapeou os principais pontos nesta reportagem.

“É super importante que os investidores entendam os riscos desse investimento. Seja pelo lado das ações, em um setor com crescimento potencial alto, seja pelo lado da exposição cambial. É importante que o investidor analise isso com base no seu perfil de investidor e seu horizonte de investimento”, explica Wachsmann.

Investir em maconha pode ser crime?
Não há fundamentos legais para processar um investidor por aportar recursos em ações de empresas produtoras de maconha no exterior ou em fundos que investem nessas empresas.

Ainda assim, na opinião de advogados e procuradores federais ouvidos pelo Valor Investe, os princípios da autonomia e da discricionariedade que regem a atuação dos promotores públicos e dos juízes fazem com que exista uma chance – ainda que irrisória – de o investidor ser alvo de um inquérito ou de uma ação penal, ainda que ao final esses procedimentos resultem em absolvições.

Bolha da cannabis?
Reportagem publicada pela Bloomberg em 16 de novembro afirma que a bolha das ações do mercado de cannabis estourou, com empresas que perderam dois terços ou até mais do seu valor de mercado.

A Canopy Growth Corp, do Canadá, ainda é a maior companha do mundo no segmento, mas viu seu valor de mercado cair de US$ 24 bilhões em abril para US$ 7,1 bilhões em novembro. A MedMen Enterprises Inc., dos Estados Unidos, avisou que vai demitir 20% de seus funcionários.

Nos últimos seis meses, o Marijuana Index – índice que reflete o desempenho de 47 ações de empresas americanas e canadenses com capitalização superior a US$ 30 milhões e giro diário acima de US$ 600 mil – acumula queda de 56,2%.

Como está esse mercado no Brasil?
Executivo e Legislativo debatem atualmente a descriminalização da maconha. No governo, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) começou a votar na semana passada a regulamentação do uso medicinal da maconha, após consulta pública aberta no primeiro semestre. Mas a votação foi interrompida por pedidos de vista feitos por dois conselheiros, Antônio Barra Torres e Fernando Mendes Garcia Neto.

O diretor-presidente da entidade, William Dib, já votou a favor da autorização de medicamentos à base da planta e da permissão do cultivo da maconha, por empresas, para fins medicinais.

Não há previsão de quando esse julgamento pode ser retomado.

No Supremo Tribunal Federal (STF), uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN) proposta em 2017 pelo Partido Popular Socialista – legenda que em março de 2019 mudou de nome para Cidadania – aguarda a inclusão na pauta de julgamento.

A ação questiona trechos da Lei de Drogas e do Código Penal e defende que o Senado Federal regule “o uso recreativo, medicinal e industrial da maconha” para que seja afastado o entendimento que criminaliza plantar, ministrar e adquirir canábis para fins medicinais.

O caso poderia voltar a ser apreciado a partir de 6 de novembro, após o ministro Alexandre de Moraes, que havia pedido vista do processo, devolvê-lo à pauta no fim de 2018, mas foi retirado da pauta e não tem data para ser julgado.

Na atualização mais recente, em setembro, Raquel Dodge, então ainda no cargo de Procuradora Geral da República, pediu que a ação fosse julgada parcialmente procedente, classificou como “omissão inconstitucional” a falta de ação sobre o tema por parte dos poderes Executivo e Legislativo e solicitou que seja fixado prazo para manifestação da União e da Anvisa.

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