“Maconha pra mim é remédio”, diz mãe de criança com Síndrome de Down e autismo

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Aos 35 anos, a então gerente jurídica e estudante de direito Cristiane Gimenez Palacios viu sua vida mudar completamente com a chegada de sua filha Valentina. Mas a mudança não se deu apenas pelo fato de naquele momento nascer uma criança e uma mãe. Um dia depois do parto, Cristiane e seu companheiro descobriram que a pequena nasceu com Síndrome de Down.

“Fiz todo o pré-natal e nenhum exame apontou que a Valentina tinha qualquer deficiência. Foi uma surpresa imensa. Mas foi a partir desse momento que percebi que minha dedicação seria integral a minha filha”, relembra.

Como resultado, a faculdade de direito, que faltava apenas um semestre para ser finalizada, ficou para trás, assim como o emprego com um bom salário. Seu companheiro dobrou os esforços no trabalho e, então, Cristiane deixou seus sonhos de lado e passou a gerenciar todos os cuidados que a filha precisava e sempre precisou, desde o dia em que nasceu.

Então, tudo mudou
Acima de tudo, até os três anos, Valentina se desenvolveu dentro do esperado. Porém, logo graves problemas gastrointestinais a levaram para uma série de internações. Ainda mais, quadros de convulsão passaram a fazer parte da rotina da família. E se não bastasse os problemas físicos, o sorriso desapareceu do rosto da pequena, que parou de interagir, de olhar nos olhos e desenvolveu uma personalidade violenta.

“Ela começou a ficar agressiva. Ela se mordia, batia a cabeça no chão, na parede, nos móveis. Passou a ter dificuldades na escola, não ficava em sala de aula. Não conseguíamos passear com a nossa filha. Foi então que veio o diagnóstico de autismo severo grave”, conta.

A descoberta do CBD
O desespero bateu. Cristiane não sabia mais o que fazer. Foi então que começou a compartilhar sua história em grupos nas redes sociais pedindo ajuda. Não demorou muito para que uma mãe com um filho deficiente indicasse uma médica que prescrevia canabidiol.

“Eu não sabia nada sobre o assunto e tinha muito preconceito contra a maconha. Porém, o CBD para mim era um extrato, um componente, então isso facilitou eu aceitar o tratamento num primeiro momento, mas o que eu não sabia é que eu estava entrando num processo imenso de desconstrução em relação à cannabis”, afirma a mãe de Valentina.

Da consulta com a médica indicada pela mais nova amiga, Cristiane e Valentina saíram do consultório com uma receita com diversos tipos de canabinoides, que, ao todo, custavam mais de R$ 4.000.

E, com a discussão na Anvisa ainda em processo, não tinham outra escolha se quisessem conseguir os óleos gratuitamente: teriam que entrar com um pedido demorado e, a essa altura, Valentina apresentava um risco iminente para ela mesma.

“Não deu para esperar. Minha filha começou a ser medicada com remédios alopáticos que só pioravam o quadro e a única coisa que os médicos sabiam fazer era aumentar a dose. Peguei a receita e escolhi o óleo mais forte [com maior nível de CBD] e que vinha no maior pote. Então, nossa vida começou a mudar”, diz. [Alerta: a escolha de ministrar o CBD desta maneira foi pessoal de Cristiane. Recomendamos sempre seguir as orientações médicas.]

Em 15 dias, Valentina apresentou melhora significativa e gradativa. A agressividade se foi. A escola notou a diferença e até mesmo passeios externos a pequena começou a fazer com os coleguinhas. Na sala de aula, começou a surgir o interesse por desenhos e histórias. A independência começou a surgir. A pequena não falava, mas passou a balbuciar letras e pequenas palavras.

“Foi fantástico. Vocês não têm ideia do que foi ver minha filha chupando um picolé pela primeira vez sozinha”, conta a mãe emocionada.

Em busca do óleo perfeito
Porém, depois de nove meses de estabilidade, Valentina voltou a ter crises, mesmo que menos intensas. Foi então que a médica decidiu prescrever o CBD de full spectrum, produto que contém todos os canabinoides encontrados na planta de cannabis da natureza, em vez de apenas o CBD.

“Eu fiquei com medo por causa do THC e dos possíveis efeitos psicoativos. Foi então que cai de cabeça nos estudos e nas pesquisas. Procurei associações, outros pais e mães e tudo o que eu podia para entender o full spectrum. Foi então que percebi que não era tão simples assim. Tem proporções e variedades que impactam no tratamento. Como eu ia saber com o óleo correto para minha filha?”, relembra.

Cristiane comprou óleo artesanal. Isso foi a derradeira. Porque, além de regredir, a pequena Valentina piorou e passou a se automutilar, a agredir as pessoas, se fechar, não querer mais interagir, deixando a mãe invadida por um sentimento de tristeza e confusão.

“Intensifiquei os estudos do uso do CBD em autistas. Foi quando eu soube que é recomendado menos THC e mais CBD, uma vez que ela é hipersensível. Foi difícil encontrar o óleo que considerava correto. Então consegui um óleo importado da Califórnia na medida que ela precisava dentro da sua condição. Bastou uma gota que de um dia para o outro tudo mudou para melhor”, diz Cristiane.

Do preconceito ao ativismo
Foi em meio a saga para ajudar a sua filha a ter uma vida com mais qualidade que Cristiane se deparou com o seu preconceito. A mãe de Valentina tinha preconceito contra quem fumava maconha, mas conheceu pessoas que plantam para uso adulto, mas que também ajudam outras famílias a terem o melhor óleo para os seus filhos.

“Sempre tive bastante preconceito com a maconha, achava um absurdo as pessoas ficarem fumando. Como resultado, eu era contra o uso. A visão que temos é das pessoas que fumam e ficam ‘morgando’. Da mesma forma, eu conhecia gente que não era produtiva. Não gostava de estar por perto de quem usava maconha. Não tenho mais nenhum preconceito com quem fuma maconha. A melhor arma contra o preconceito é a informação. Portanto, precisamos abrir a mente. Maconha hoje pra mim é remédio”, alerta.

A busca pelo óleo ideal continua, devido a razão de que a fonte do óleo que tem ajudado a pequena está de mudança para outro país. Valentina está melhor, mas ainda instável, por conta da constante troca de óleo, mesmo com os cuidados de Cristiane de testar os níveis de CBD e THC dos produtos que compra (Cristiane usa um teste, que afere a quantidade dos componentes de forma imediata).

“Acredito que nossa saída esteja no autocultivo, para que eu possa ter controle do que estou dando para minha filha dentro das necessidades específicas dela. Provavelmente, continuaremos testando os óleos disponíveis, mas não considero esse caminho o ideal. Sou ativista e ajudo outras pessoas nesse processo”, finaliza.

[Alerta: Não recomendamos o uso de nenhuma substância sem orientação e prescrição médica]
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